Prólogo

Prólogo

O perigo espreita nas sombras do cemitério. Quando um caçador talentoso confronta uma criatura capaz de moldar espadas de pura energia espectral, a escuridão se ilumina com o choque mortal.

Página estimada 1 / 1

Esse caçador é muito talentoso…

A criatura desviou da lâmina por um triz.

Diante dela estava um caçador envolto em uma capa escura, que se agitava a cada movimento. O capuz escondia parte de seu rosto, enquanto uma máscara cobria suas feições. Apenas os olhos permaneciam visíveis através das aberturas estreitas.

A espada passou diante de seu rosto, iluminando o cemitério com os símbolos gravados em sua extensão. Cada movimento deixava um breve rastro de luz azulada na escuridão.

Ele é perigoso. É melhor eu não brincar…

— Já matei diversos caçadores.

Antes de avançar, a criatura levou a mão ao próprio antebraço e começou a desenrolar lentamente as ataduras que o cobriam.

As faixas caíram no chão.

Sob elas, antigas marcas de queimaduras percorriam a pele em linhas irregulares.

Então direcionou a mão para para o chão, como se sacasse uma espada.

Os dedos permaneceram estendidos e unidos, rígidos, enquanto o polegar se dobrava contra a palma.

Uma energia irregular e avermelhada, como chamas, desceram de seu antebraço e se estendeu até seus dedos.

Um formato de espada começou a se formar.

Não havia metal.

A espada era feita de energia espectral inquieta. Sua borda pareciam evaporar no ar, como chamas que nunca se apagavam, enquanto sombras percorriam seu interior.

Por um instante, rostos assustados surgiram em formato de chamas.

Bocas abertas, olhos arregalados, como se gritassem por socorro.

Pareciam almas tentando escapar.

A criatura a observou e sorriu de leve, como se suportasse uma dor antiga.

Era uma arma capaz de intimidar muitos.

Talvez não um caçador.

Então avançou.

As duas armas se chocaram.

CLANG!

O impacto espalhou faíscas vermelhas e azuis pela escuridão.

O caçador recuou, girou o corpo e atacou novamente.

A criatura bloqueou.

CLANG!

Um corte baixo.

Ela saltou para trás.

Outro golpe na altura do peito.

Ela se desviou.

A arma espiritual acompanhava cada movimento de seu braço, alongando-se e se deformando conforme a criatura atacava. A cada golpe, deixava no ar um rastro vermelho que demorava alguns segundos para desaparecer.

— Mas você é diferente, caçador.

O caçador avançou sem hesitar.

A criatura tentou contra-atacar, mas ele girou a espada e aparou o golpe.

Então ergueu a mão livre.

Em um movimento rápido, o caçador enfiou a mão sob as vestes e puxou um pequeno pergaminho.

As palavras escritas nele começaram a brilhar.

A criatura recuou.

— Não…

O pergaminho se desfez em cinzas.

As lápides ao redor estremeceram.

A terra sob seus pés começou a se mover.

A criatura avançou antes que o ritual pudesse terminar.

Sua lâmina atravessou o ombro do caçador.

Ele cambaleou.

Por um instante, pareceu que cairia.

Mas permaneceu de pé.

Ele está ferido!

Sorriu a criatura.

Essa é minha chance.

Ela avançou.

O caçador tentou erguer a espada novamente, mas seu braço falhou por um instante.

A dor atravessou o ombro ferido.

Foi o suficiente.

A criatura surgiu diante dele.

As duas espadas se chocaram.

CLANG!

O impacto ecoou pelo cemitério.

Por um instante, os dois permaneceram imóveis, com as lâminas travadas uma contra a outra.

Olho no olho.

O caçador respirava com dificuldade.

A criatura sorria.

Então o caçador percebeu algo estranho.

A espada da criatura começou a se desfazer.

Não como uma lâmina quebrando.

Ela simplesmente perdia sua forma.

Fragmentos de energia espectral escorriam da lâmina, evaporando no ar como fumaça.

O caçador arregalou os olhos.

A criatura aproveitou o instante.

A espada espectral se desfez parcialmente, libertando o braço da criatura.

Sua mão agarrou o braço do caçador.

— O quê…?

Ela o puxou violentamente para perto.

O caçador tentou golpeá-la novamente, mas já não havia espaço.

Então a criatura abriu a boca.

As presas surgiram.

E afundaram na carne, na região entre o pescoço e o ombro.

— AAAAAH!

O grito ecoou pelo cemitério.

O caçador largou a espada por um instante e agarrou a criatura, tentando arrancá-la de seu corpo.

A dor era diferente daquela causada pela lâmina.

Mais profunda.

Como se algo queimasse dentro dele.

A criatura apertou a mordida.

Então…

Uma luz surgiu sob as vestes do jovem.

Fraca no começo.

Quase imperceptível.

A luz aumentou.

Um brilho azulado começou a pulsar próximo ao peito do caçador.

O pequeno colar que permanecia escondido sob as roupas do jovem começou a emitir uma intensa luz azulada.

A criatura tentou se afastar.

Mas já era tarde.

Uma onda de energia percorreu o corpo do jovem.

FWOOSH!

No exato instante do impulso que repelia a criatura, as garras da criatura — fincadas e tateando em desespero — engancharam-se firmemente nas bordas da máscara que ocultava o rosto do caçador. Com a violência brutal do impacto de luz, o monstro foi arremessado para trás, levando a máscara arrancada à força consigo.

Seu corpo bateu fortemente contra uma lápide.

CRASH!

Ela caiu no chão, rolou alguns metros e imediatamente levou a mão ao rosto.

Sua pele fumegava.

— AAAAAARGH!

A criatura olhou para a própria mão.

Partes dos dedos estavam queimadas.

Ela ergueu os olhos lentamente para o caçador.

Ele agora estava com o rosto totalmente descoberto.

Ele permanecia de pé, cambaleando.

Uma das mãos pressionava o ferimento da mordida.

A outra segurava o colar que ainda brilhava sob suas vestes.

Os olhos da criatura se arregalaram levemente.

Sob a luz fraca do colar, não havia um veterano calejado, mas sim a face jovem de um prodígio cujo talento desafiava a lógica.

— Ora, ora… — murmurou a criatura, recuperando o fôlego e sorrindo com uma mistura de surpresa e desprezo.

— Então se trata de um jovem caçador. Tenho que admitir, você é um oponente formidável.

A luz azulada continuava pulsando.

É melhor eu ficar atento. Ele possui vários truques.

O brilho do colar começou a diminuir.

A criatura permaneceu imóvel, observando.

Então sorriu.

O jovem tentou levantar a espada novamente, mas estava fraco.

— É uma pena não viver para aproveitar o talento que tem, jovem caçador.

A criatura avançou para desferir o golpe final.

A energia vermelha voltou a se agitar em seu braço.

A Comedora de Almas se estendeu novamente, sua forma espectral se contorcendo como uma chama viva.

— Esse será o seu fim!

O quê?!

Algo explodiu do chão.

Uma criatura negra, magra, alta, com ombros largos, sem rosto e de aparência lenta surgiu entre os dois, com correntes presas aos braços e às pernas.

A lâmina espectral atravessou o corpo escuro e penetrou profundamente na criatura negra.

Mas ela não emitiu nenhum som de dor, mantendo-se impassível e sem demonstrar qualquer reação física ao impacto.

CLANG!

O braço da criatura ficou preso.

Não consigo puxá-lo.

A criatura ergueu os olhos.

Acima dela, por trás do ombro da criatura negra, uma silhueta surgiu contra a escuridão.

O jovem estava no alto.

Saltava em sua direção, segurando a espada com as duas mãos.

E desceu a espada com toda a força, desferindo um poderoso corte no ar.

A criatura tentou puxar o braço.

Nada.

Ele estava preso.

O corte estava vindo.

Sem outra escolha, a criatura desfez a espada espectral.

A energia desapareceu de sua mão.

Livre, ele arrancou o braço de dentro da criatura no último instante.

O corte passou longe de seu rosto.

Eu sou mais rápido.

Mas o encantamento…

O ar cortante azulado da espada encantada atingiu seu rosto.

Um clarão.

Dor.

Escuridão.

A criatura caiu de joelhos.

Sua mão foi imediatamente ao rosto.

Sangue.

Muito sangue.

Ela tocou o próprio rosto, sentindo o líquido quente escorrer entre os dedos.

Por alguns segundos, ficou de joelhos, gemendo de dor.

Então estendeu os dedos no formato de espada.

A energia começou a se acumular, tentando tomar a forma da espada espectral.

Mas, antes que se formasse, a energia vacilou…

e se desfez no ar.

A criatura encarou a própria mão, surpresa.

— Vai pagar por isso! — rosnou a criatura.

Mais do que dor… perdi o caminho de casa.

A criatura se levantou.

E fugiu para dentro da escuridão.

Atrás dela, o cemitério voltou a ficar em silêncio.

O jovem caçador tombou contra a pedra fria de um túmulo. Suas mãos tatearam o chão de terra até encontrarem uma frieza familiar. Puxando-a de volta, ele encaixou a máscara firmemente sobre o rosto.

— Por que demorou tanto, amigo? — perguntou ele, com um leve sorriso, referindo-se à criatura negra que acabara de invocar.

Então, levou a mão ao ombro.

A ferida ainda queimava na região entre o pescoço e o ombro, onde as presas haviam afundado em sua carne.

Mas não era aquilo que mais o preocupava.

Ele tocou a máscara…

A criatura agora sabia sua identidade.

E então, fechou os olhos.

Naquela noite, nenhum dos dois havia vencido.

Ambos carregariam marcas para o resto de suas vidas.

Gostou deste capítulo?

Apoie Yara e ajude a manter a história viva.