Capítulo 1 — A Criatura
Resumo
Do alto da montanha, olhos vigilantes miram a aldeia abaixo. Com um passado doloroso e poderes ainda instáveis, a criatura dá o primeiro passo rumo à vingança.
No alto da montanha, muito acima das árvores, alguém observava.
A criatura permanecia imóvel na ponta do penhasco, onde a rocha terminava em uma queda vertiginosa até o vale. Muito abaixo, entre as sombras, pequenas luzes tremeluziam, cercadas por uma densa floresta envolta em neblina. A aldeia.
O vento soprava forte, fazendo o manto escuro ondular atrás de seu corpo. As pontas rasgadas erguiam-se ao ar como asas deformadas. Sob o capuz, fios de cabelo muito claros escapavam e dançavam diante de seu rosto. Uma faixa escura cruzava-lhe a testa, apertada demais para parecer apenas parte das vestes.
Sua respiração não formava vapor no ar gelado.
Ela não vacilava diante da altura.
Seus olhos permaneciam fixos nas luzes distantes, como se esperassem o momento exato.
Por um longo instante, nada se moveu.
Então, lentamente, uma das mãos subiu até o rosto.
Dedos longos, terminados em unhas escuras e duras como pequenas garras, tocaram a atadura.
O corpo inteiro se contraiu.
Por um breve instante, uma lembrança atravessou sua expressão: o reflexo de uma lâmina, um clarão, uma dor antiga.
A mão apertou o tecido.
Depois, afrouxou.
— Então… — A voz saiu baixa e rouca, carregada pelo peso dos anos. — É aqui.
O vento levou as palavras para o vazio.
Ela deu um passo à frente.
O pé encontrou a rocha com firmeza silenciosa. Os dedos compactos se ajustaram à pedra, firmando-se com uma naturalidade que não pertencia a um homem.
A criatura inclinou a cabeça.
Escutou.
O vento.
As árvores.
Os sons distantes da noite.
Então, por um instante, a sombra do capuz recuou.
A pele pálida, de um tom levemente azulado quase imperceptível, surgiu entre as sombras. Marcas antigas cortavam-lhe o rosto. Seus lábios se curvaram em um sorriso breve, revelando presas longas antes que voltassem a desaparecer sob o capuz.
Ela havia percebido alguma coisa.
— Eu senti você… — murmurou.
Seus olhos se estreitaram.
Silêncio.
Mas você também pode me sentir, preciso ser cauteloso.
As ataduras que envolviam um de seus braços se apertaram.
A criatura olhou para uma das próprias mãos.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então estendeu os dedos.
Uma energia avermelhada, muito tênue, surgiu entre eles.
Era quase imperceptível.
A criatura franziu o cenho.
Tentou concentrá-la.
A energia tremeu.
Por um instante, pareceu ganhar força.
Então se desfez.
Pequenos fragmentos avermelhados desapareceram no ar.
A criatura permaneceu olhando para a própria mão.
Tentou novamente.
Nada.
Sua expressão endureceu.
Os dedos se fecharam lentamente.
— …
Ela abaixou a mão.
Não havia compreensão em seu rosto.
Apenas frustração.
— Ainda está aqui.
Uma pausa.
— Depois de tanto tempo…
— Esperei demais para perder a calma agora. Você se escondeu bem. Muito bem.
— Mas o tempo passou para você. Está mais fraco… ao contrário de mim.
Sua mão se fechou firmemente.
Um líquido negro e espesso escorreu entre seus dedos.
— Desta vez, não vai escapar.
A criatura recuou da beirada. O manto voltou a envolver sua silhueta por completo.
Seus passos eram firmes.
Silenciosos.
E, pouco a pouco, sua figura desapareceu entre as sombras.
Lá embaixo, a aldeia continuava adormecida.
Ninguém soube que ela estivera ali.
E ninguém poderia imaginar que, naquela noite, a criatura finalmente havia encontrado aquilo que procurava.
A ameaça não vinha da floresta.
Ela já havia encontrado o caminho até eles.