Capítulo 5 — O Acordo

Capítulo 5 — O Acordo

Zeph acorda num casebre sombrio e testemunha um confronto tenso entre uma bruxa e uma figura encapuzada. Dominado pelo medo, tenta uma fuga desesperada rumo à névoa.

Zeph despertou com a garganta em fogo, como se estivesse engolindo brasas.

Um cheiro doce e podre — uma mistura enjoativa de ervas secas e carne em decomposição — grudava-se ao fundo de sua boca antes mesmo de ele conseguir abrir os olhos.

Quando finalmente conseguiu erguer as pálpebras pesadas, percebeu que estava deitado sobre uma camada de palha seca e imunda espalhada por cima de uma superfície dura de madeira velha e rachada.

Onde estou?

Era impossível saber quantas horas — ou talvez dias — havia passado ali desacordado; seu corpo inteiro parecia pertencer a outra pessoa.

As paredes ao redor eram formadas por tábuas mal encaixadas de onde pendiam feixes de ervas escuras, ossos humanos e de animais amarrados por cordas apodrecidas, além de dezenas de frascos de vidro empoeirados com líquidos de cores que desafiavam a lógica.

Mais adiante, prateleiras e estantes toscas exibiam fileiras de potes macabros: globos oculares que pareciam girar lentamente no líquido turvo, línguas ressecadas e pedaços disformes de carne que ele preferiu não identificar.

Sobre uma mescla de tábuas retorcidas, repousavam livros antigos de capas de couro grosso e páginas amareladas, abertos em páginas repletas de anotações com tintas escuras e desenhos anatômicos perturbadores.

Zeph levou a mão trêmula à cabeça, sentindo uma dor latejante em cada pensamento.

Ao se mexer, um incômodo agudo no braço o fez olhar para baixo: havia uma atadura de pano áspero amarrada ali, manchada de um vermelho escuro e seco.

Perto dele, sobre um banquinho tosco, repousava um pote de madeira rústica com crostas de sangue ressecado em sua borda interna.

Como se alguém tivesse drenado parte de seu sangue enquanto ele dormia.

No centro do cômodo, um grande caldeirão negro borbulhava, com uma chama forte por baixo, exalando uma fumaça esverdeada e espessa que subia em espirais lentas até o teto.

— Onde… — a própria voz saiu como um arranhão seco, doloroso e estranho aos seus ouvidos.

Apoiando-se nos cotovelos com extrema dificuldade, a fraqueza pesando em cada músculo de seu corpo dolorido, Zeph arrastou-se pelo chão até alcançar uma pequena janela mal encaixada na parede lateral, por onde entrava um fio fino e gélido de luar.

O que viu do lado de fora fez seu sangue congelar nas veias.

Não pode ser, acho que estou me lembrando do que aconteceu… — pensou Zeph, levando uma das mãos à cabeça como se recordasse de algo doloroso.

Em pé, diante da entrada do casebre, a figura encapuzada conversava com a bruxa. Os ombros tensos, o manto escuro confundindo-se com a escuridão da noite.

A bruxa era pequena e curvada — a mesma mulher de olhos fundos e feições cadavéricas que ele vira antes de perder a consciência.

— Está aqui o que exigiu — sibilou ela, os olhos fundos brilhando com uma cobiça doentia enquanto apertava o saco de pano contra o peito encurvado.

A criatura estendeu a mão, enfaixada e rígida, e fechou lentamente os dedos ao redor do pequeno frasco escuro que acabara de receber.

— Use com sabedoria. No momento certo — advertiu a bruxa. — O processo é indolor e não apagará suas memórias. Apenas o deixará desorientado e confuso no início. Pode durar algumas horas… ou até dias.

A criatura permaneceu em silêncio, observando o frasco entre os dedos.

— Além disso, não tive tempo de testá-lo por completo. Não sei se as proporções estão ideais para o seu corpo. Fiz os cálculos da melhor maneira que pude.

— Eu sei muito bem o risco… desde que eu não morra — respondeu, sem esboçar qualquer reação.

A bruxa abriu um sorriso torto.

— Enfim, lembre-se de que ficará vulnerável. É um caminho sem volta.

A criatura não tinha escolha.

Havia passado meses observando aquela aldeia.

Conhecia os nomes. Conhecia os rostos. Sabia onde cada pessoa costumava estar e quais caminhos percorria. Conhecia seus hábitos. Seus horários.

Estava disposta a correr o risco.

Então, a bruxa estendeu a palma enrugada na direção da criatura, como se aguardasse por algo.

Sob as dobras espessas de seu manto, a criatura tateou por um instante antes de revelar o pagamento: uma espécie de pequena flauta com formato de cabeça de dragão na extremidade e símbolos marcados por uma escrita não identificável para um ser humano — parecia um objeto não pertencente ao mundo real.

A bruxa ergueu o rosto, um sorriso ganancioso se abrindo em seus lábios, e estendeu a palma enrugada para recebê-la.

Mas a criatura não a entregou.

Em vez disso, levou o artefato aos lábios. Um sopro curto, sôfrego e agudo cortou o silêncio da noite — uma melodia impossível, feita de notas que pareciam arranhar a alma e congelar o ar ao redor.

No mesmo instante, o tempo pareceu parar.

Dentro do casebre, o corpo de Zeph travou por completo. Ele tentou recuar, mas seus músculos recusaram qualquer comando; nem mesmo suas pálpebras conseguiam piscar. Apenas sua mente continuava desperta, prisioneira de um corpo de pedra, enquanto a música macabra ecoava em seus ouvidos como um peso esmagador, fazendo cada batida do seu coração desacelerar em pura agonia.

Fora dali, a bruxa sofreu o mesmo destino. O sorriso ganancioso congelou em seu rosto. Ela tentou se mover, mas seus membros endureceram como estacas fincadas no chão. Seus olhos fundos arregalaram-se em pavor, presos ao som daquela flauta que paralisava até a própria respiração do mundo.

Apenas alguns segundos se passaram — uma eternidade em silêncio mortal —, antes que a melodia cessasse bruscamente.

O encanto se desfez junto com a última nota, devolvendo o comando de seus corpos a ambos no mesmo instante.

Sem hesitar, a criatura encapuzada pegou a pequena flauta e a jogou para o alto, em direção à bruxa.

Livre novamente para se mover, a bruxa ergueu o rosto, o sorriso ganancioso retornando aos lábios, os olhos acompanhando o brilho do objeto subindo na escuridão.

Então ouviu um som seco.

Shhick.

A criatura já havia sacado do manto uma pequena espada de lâmina negra.

— Aqui está sua parte.

O objeto continuava caindo, girando lentamente no ar acima dela.

Por um instante — um instante longo demais — nada aconteceu.

Ela sentiu apenas uma leveza estranha.

Confusa, ela levou a mão ao pescoço, tentando entender o que era aquele calor úmido escorrendo por baixo do queixo.

O sangue negro e espesso pingava na lama.

Um borbulhar úmido tomou o lugar de qualquer grito que ela tentasse soltar.

Desesperada, apertava firmemente o ferimento, tentando estancar o sangue.

Porém, suas pernas cederam.

Uma morte sem grito.

A criatura inclinou-se lentamente, aproximando o rosto da orelha dela, e sussurrou com frieza:

— Não existe acordo com mortos.

O coração de Zeph disparou.

Agachando-se rapidamente enquanto encostava na parede, pensou:

Preciso sair logo daqui…

Afastou-se da janela devagar, ainda agachado, com as pernas ainda bambas. Os olhos correram pelo pequeno cômodo, procurando qualquer coisa que pudesse levá-lo para fora.

Não havia tempo para pensar.

Precisava sair.

No desespero, seu ombro atingiu uma das prateleiras.

CRASH!

Frascos despencaram e se partiram contra o chão.

Os líquidos espalharam pelas tábuas, escorrendo lentamente em direção ao grande caldeirão cheio.

Ele mal percebeu.

Seus olhos haviam encontrado uma porta estreita de madeira, quase escondida atrás de algumas caixas, nos fundos do cômodo.

Correu até ela.

A porta estava presa apenas por uma tira de couro apodrecida.

Zeph agarrou o couro e puxou.

Nada.

Puxou novamente, desta vez com toda a força que ainda lhe restava.

TRAC!

A tira se rompeu.

A porta abriu de uma vez, deixando entrar uma rajada de ar frio.

Zeph não olhou para trás.

Correu.

As pernas doíam a cada passo, mas o medo era mais forte que a dor. Galhos rasgavam sua pele, raízes tentavam prender seus tornozelos e os pulmões queimavam a cada respiração.

Ainda assim, continuou.

Sem direção.

Sem plano.

Apenas para longe.

Para qualquer lugar que estivesse longe daquilo que acabara de ver através daquela janela.


O silêncio que se seguiu à morte da bruxa era quase absoluto.

Apenas o vento passava entre as árvores.

De tempos em tempos, uma gota de sangue negro caía do corpo da bruxa e desaparecia na lama.

A criatura encapuzada permaneceu imóvel diante do cadáver.

Então, lentamente, ajoelhou-se.

Seus dedos tocaram a terra úmida até encontrarem o pequeno objeto que havia sido lançado ao alto momentos antes.

A criatura o recolheu.

Observou-o por um breve instante.

Depois, guardou-o cuidadosamente sob as dobras do manto.

Levantou-se.

Os olhos se voltaram para a pequena casa de madeira da velha bruxa.

Dando passos lentos, calculados e completamente silenciosos, a criatura aproximou-se da porta da entrada.

Empurrou-a devagar.

As dobradiças antigas soltaram um gemido prolongado.

Nheeeec…

A lâmina negra ergueu-se pronta para o bote.

A criatura entrou.

Mas o interior do cômodo estava vazio.

O caldeirão ainda borbulhava sobre o fogo, lançando pequenas bolhas contra a superfície escura do líquido. Uma fumaça esverdeada subia lentamente e se acumulava sob o teto.

Mas Zeph havia sumido.

Por um segundo, a figura parou.

Então seus olhos percorreram o interior do casebre.

A janela.

As prateleiras.

O chão.

Foi quando percebeu os cacos espalhados.

E, mais adiante, a porta dos fundos.

Escancarada.

A criatura caminhou até ela.

No chão, uma trilha irregular de líquido escuro serpenteava entre os estilhaços.

Uma pequena chama sob o caldeirão tremulou.

O líquido continuou avançando.

Uma gota alcançou a chama.

Tsss.

A chama mudou de cor por um instante.

A criatura parou.

Seus olhos desceram lentamente para o chão.

Outra pequena porção do líquido tocou o fogo.

TSSS…

Desta vez, a chama cresceu.

A criatura recuou meio passo.

Tarde demais.

O fogo percorreu a trilha de líquido em uma velocidade assustadora, avançando pelo chão até alcançar os fragmentos espalhados ao redor do caldeirão.

O ar pareceu estremecer.

O caldeirão começou a vibrar.

Uma rachadura surgiu em um dos frascos próximos.

Então—

BOOOOM!

Uma forte explosão de fogo e fumaça esverdeada tomou o cômodo.

A criatura foi arremessada para trás com violência.

A explosão podia ser ouvida de muito longe.

Seu corpo atravessou uma das prateleiras, despedaçando a madeira antes de colidir violentamente contra a parede.

Frascos voaram pelo ar.

Vidros estilhaçaram-se contra o chão.

As chamas envolveram o teto por um instante, antes de serem sufocadas por uma nuvem espessa de fumaça.

Parte das estruturas de madeira do teto desabou sobre a criatura, soterrando-o sob os destroços.

Nenhum homem teria resistido àquele impacto.

Tudo ficou em silêncio.

Então, entre os destroços, ouviu-se um movimento.

A criatura começou a se levantar.

Devagar.

Um pedaço de madeira havia rasgado parte de seu manto, e um corte se abria próximo ao canto de sua boca. Uma linha de sangue escorria pelo rosto.

Ele apoiou uma das mãos na parede.

A outra foi até as costelas.

Ao respirar, uma dor aguda atravessou seu peito, e o ar saiu num chiado curto.

Ele tossiu.

Uma, duas vezes.

Sangue escuro manchou seus lábios.

A criatura limpou a boca com as costas da mão e olhou para o que havia ficado nela.

Mais do que esperava.

Ainda assim, sorriu.

— Será que isso foi uma armadilha… ou apenas muitos anos de azar por ter matado uma velha bruxa? Ou será apenas o acaso do destino tentando me deter?

A voz saiu rouca, interrompida por outra tosse, mais funda, que a obrigou a se curvar.

Quando se endireitou, levou a mão ao manto.

O frasco continuava ali. Intacto.

Ele soltou o ar devagar.

Olhou ao redor, avaliando os estragos. Depois, seu olhar voltou para a porta dos fundos, ainda aberta, além da qual a floresta mergulhava em escuridão.

A mão apertou o cabo da espada.

Os dedos tremeram.

Por alguns segundos, permaneceu assim, imóvel, contando as próprias respirações.

Então relaxou.

Não era necessário eliminá-lo. Muito menos naquele estado.

Ele já está condenado à morte.

Gostou deste capítulo?

Apoie Yara e ajude a manter a história viva.

Última atualização: