Capítulo 4 — A Pior Notícia da Noite
Resumo
Os lenhadores retornam com atraso e com um trabalhador a menos, forçando a aldeia a organizar uma perigosa missão de resgate na floresta proibida ao cair da noite.
As primeiras luzes da aldeia surgiram entre a escuridão.
Pequenos pontos azuis tremeluziam ao redor dos muros.
O caminho que levava até os portões permanecia mergulhado na noite, mas algumas pessoas já esperavam do lado de fora.
Amigos.
Esposas.
Filhos.
Curiosos.
Todos aguardavam o retorno dos lenhadores.
Aquele era um dia atípico para todos.
Eles já deveriam ter cruzado a paliçada havia algum tempo.
Naquele dia, porém, o sino havia tocado tarde.
Muito tarde.
A regra era simples: quando o sino tocasse, todos deveriam abandonar a floresta imediatamente.
Mas, por alguma razão naquele dia, o sino não havia tocado no horário de sempre.
E, quando finalmente soara, a névoa já havia descido sobre a mata.
Por isso, os lenhadores estavam atrasados.
O frio cortante da noite fazia alguns apertarem os mantos grossos contra o corpo, enquanto outros mantinham os olhos fixos na linha escura da mata, imóveis como estátuas.
— Eles já deveriam ter chegado…
Uma mulher olhou para o marido ao seu lado.
— Talvez tenham demorado para carregar as carroças.
— Eles sempre chegam antes disso.
Ninguém respondeu.
Perto dos portões, Amara permanecia imóvel.
Seus olhos percorriam incessantemente a estrada deserta, buscando o primeiro sinal das carroças ou o lampejo de uma tocha, enquanto sua mão repousava firmemente sobre o próprio ventre, num gesto protetor quase inconsciente.
— Você está preocupado — disse Amara.
Darian não respondeu.
Esfregou o ombro por cima da roupa, como fazia nas noites frias, e olhou para o céu
As nuvens haviam coberto quase todas as estrelas.
Estou.
Amara voltou a olhar para a estrada.
— Pai! você me escutou?
Darian finalmente a encarou.
— Estou.
— Com o Zeph?
— Com todos eles.
Darian voltou os olhos para a estrada.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então…
Um som distante rompeu o silêncio.
Clac.
Amara ergueu a cabeça.
Clac. Clac.
O ruído se repetiu, cada vez mais claro.
Rodas.
As pessoas próximas aos portões começaram a se entreolhar.
— Vocês ouviram isso?
O som vinha da estrada.
De dentro da escuridão.
Logo depois, os primeiros cavalos surgiram entre as sombras.
Ofegantes.
Os flancos cobertos de suor e espuma.
Atrás deles, a primeira carroça surgiu em disparada pela estrada irregular. Logo atrás, vinham as outras duas. As rodas passavam por cima da lama e dos galhos, fazendo a madeira ranger a cada solavanco.
— São eles! — alguém gritou.
As pessoas correram alguns passos em direção à estrada.
Amara apertou o ventre.
Seus olhos procuraram imediatamente por Zeph.
Mas havia algo errado.
As carroças passaram pelos portões.
Homens estavam amontoados em seu interior.
Alguns seguravam as laterais.
Outros pareciam exaustos.
Nenhum deles comemorava o retorno.
Os cavalos estavam mais agitados do que o normal.
Darian sentiu que tinha algo de errado, estreitou os olhos, encontrou Oskar.
— Onde está Zeph?
— Onde está o Zeph?! — Darian gritou.
Oskar abaixou o olhar.
Amara deu um passo à frente.
— O que aconteceu?
Oskar respirou fundo antes de responder.
— A névoa surgiu rápida demais.
Sua voz saiu baixa, ainda carregada pelo medo.
— Em poucos instantes, não conseguíamos mais enxergar nem mesmo uns aos outros.
Amara franziu a testa.
— Então vocês simplesmente voltaram?
— Não foi assim.
Oskar ergueu os olhos para ela.
— Quando percebemos que Zeph não estava mais com a gente, eu quis voltar.
Ele apertou o cabo do machado.
— Eu tentei.
Amara deu mais um passo.
— E por que voltou?
Oskar demorou um instante para responder.
— Porque os outros me impediram.
Amara o encarou, incrédula.
— Impediram?
— Sim.
Ele apontou para a estrada atrás de si.
— A névoa estava fechando tudo. Ninguém conseguia enxergar o caminho direito. Os cavalos estavam assustados, os homens estavam começando a entrar em pânico… Se eu tivesse entrado sozinho naquela mata, talvez nenhum de nós tivesse conseguido voltar.
Amara apertou as mãos.
— Mas o Zeph ficou lá!
— Eu sei!
A voz de Oskar saiu mais alta.
Todos ficaram em silêncio.
Oskar respirou fundo e abaixou novamente o tom.
— Eu sei, Amara.
Ele olhou para a floresta.
— Eu não queria deixá-lo.
Os olhos de Amara começaram a se encher de lágrimas.
Mas a raiva falou antes.
— Então como você conseguiu voltar sem ele?
Oskar ficou imóvel.
— Como você consegue ficar aqui, sabendo que seu amigo está naquela floresta?
Oskar fechou os olhos por um instante.
— Porque eu prometi que voltaria para buscar ajuda.
Amara finalmente falou:
— O que exatamente aconteceu antes de vocês perderem Zeph?
Oskar olhou para ela.
— Estávamos terminando de carregar as coisas quando a névoa começou a subir.
Ele engoliu em seco.
— No começo, parecia normal. Mas ficou cada vez mais densa. Muito rápido.
— Tudo culpa do sino que tocou tarde demais.
Oskar passou a mão pelo rosto.
— Tudo aconteceu tão rápido…
— Quando percebemos, Zeph já não estava mais perto de nós.
Amara balançou a cabeça.
— Não…
— Nós gritamos por ele.
Oskar olhou para os outros homens.
— Procuramos por alguns minutos, mas não conseguíamos enxergar quase nada.
— Então alguém decidiu voltar? — perguntou Amara.
Oskar assentiu.
— O mais velho disse que precisávamos retornar à aldeia e buscar ajuda. Que ficar ali significaria perder mais homens.
Amara olhou para ele com os olhos marejados.
— E você concordou?
Oskar permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Não.
A resposta saiu firme.
— Eu queria ficar.
Ele apertou os dentes.
— Mas éramos muitos. E ninguém conseguia enxergar nada naquela maldita névoa.
— Sem contar as risadas — acrescentou um lenhador.
— O quê?! — Darian interrompeu a conversa imediatamente.
— Sim, as risadas. Nós ouvimos…
Droga.
Zeph está em apuros
— Como assim vocês deixaram Zeph em perigo?! — esbravejou Amara.
— Eu não—
Darian não deixou que terminasse.
— Amara! Não temos tempo a perder, estamos apenas atrapalhando!
— Eles precisam montar uma equipe de resgate urgente, nada que dizermos aqui irá ajudar o Zeph neste exato momento.
Até que um barulho de armadura se aproximava.
Comandante Cássio.
Segurando seu capacete debaixo do braço.
— Olá rapazes, já estamos sabendo do ocorrido.
— Eu mesmo irei ajudar na busca de Zeph.
Oskar se aproximou.
— Eu também vou.
Cássio olhou para ele, avaliando.
— Você acabou de sair da floresta.
— E foi exatamente lá que deixei meu amigo.
Darian colocou a mão no ombro de Oskar.
Cássio assentiu devagar.
— Ele pode ajudar, ele sabe o caminho e onde tudo ocorreu.
— Então vamos agora, peguem as tochas mágicas.
Mas antes que pudessem avançar…
— Ninguém vai a lugar algum.
A voz veio de trás.
Todos se viraram.
Um homem alto caminhava em direção ao grupo.
Seu corpo era largo e musculoso.
O rosto marcado por algumas cicatrizes.
Vestia partes de uma armadura escura, diferente da dos soldados comuns.
Carregava um grande machado de duas faces em suas costas.
Capitão Brutos.
Um dos braços direitos do Lorde Gudran.
Ele parou diante de Oskar e os outros.
— Ouvi dizer que pretende entrar na floresta.
Darian não respondeu.
Brutos continuou:
— Depois do sino, ninguém está autorizado a sair desta aldeia.
Brutos talvez esteja certo, mas esta decisão pode condenar Zeph. — pensou Darian.
Amara implorou a Brutos
— Meu marido está lá, pai do filho que carrego no ventre!
— Isso não muda a regra.
Darian estreitou os olhos.
— A regra existe para proteger os homens.
— Exatamente, isso que eles irão fazer!
Brutos cruzou os braços.
— E você pretende colocar mais homens em risco porque um homem não conseguiu obedecer ao toque do sino?
Por um instante, seus olhos escaparam na direção da floresta — rápido demais para que alguém notasse, exceto talvez Darian.
Antes que alguém respondesse…
Dong.
Um único toque ecoou pela aldeia.
Todos ficaram imóveis.
Oskar deu um passo à frente.
— Zeph não desobedeceu.
Brutos olhou para ele.
— Não estou interessado em saber quem desobedeceu.
— Ele ficou preso na névoa.
— E agora está desaparecido.
Brutos apontou para a floresta.
— A ordem do Lorde Gudran é clara. Depois que o sino tocar, ninguém entra na mata.
— A ordem não foi feita para abandonar homens vivos. — Respondeu Oskar.
Brutos deu um sorriso curto.
— Você tem certeza de que ele está vivo?
Oskar fechou os punhos.
Darian colocou a mão sobre o ombro de Oskar.
— Não.
— Se você falar mais uma vez que meu amigo não está vivo…
Brutos ficou em silêncio.
— O que irá fazer?
Brutos deu um passo à frente, bloqueando o caminho.
— Eu disse que ninguém vai.
Oskar ergueu lentamente os olhos.
— Saia da frente, Brutos.
— Não.
Brutos levantou uma das mãos.
— Ninguém sai.
O vento atravessou a praça.
Brutos se preparava para sacar seu machado.
Quando de repente…
Uma figura esquálida emergiu da penumbra.
O som seco e rítmico de um cajado de carvalho batendo nas pedras irregulares da praça cortou o silêncio tenso, anunciando cada passo lento, porém firme.
— Chega, Brutos! — ecoou a voz grave, cortando o ar como uma lâmina.
Lorde Gudran, com suas longas barbas prateadas que pareciam desafiar os ventos, avançou além dos portões de seu castelo, flanqueado por dois soldados de armaduras pesadas e olhares sérios.
Todos os soldados imediatamente se ajoelharam. Em um ritmo mais lento, todos os outros seguiram o mesmo gesto de cordialidade.
Brutos ergueu o rosto levemente, o maxilar tenso, e engoliu o orgulho com visível esforço.
— Perdoe-nos, meu Lorde — disse Brutos, a voz contida, quase engasgada pela submissão obrigatória.
— Oskar, junto ao comandante Cássio, pretendiam desafiar o toque de recolher e entrar na mata. Tentei impedi-los de cometer uma loucura.
Lorde Gudran deu mais dois passos à frente, o cajado marcando o ritmo impiedoso de sua chegada. Seus olhos cinzentos e profundos varreram a praça, detendo-se primeiro nos soldados enfileirados, depois em Oskar e, finalmente, fixando-se em Darian, que se levantava devagar, mantendo a postura firme.
— Loucura é deixar que o medo ditar nossas fronteiras, Brutos — retrucou Gudran, a voz grave ecoando pelas paredes de pedra da praça.
— Mas indisciplina diante dos portões também tem um preço.
O senhor da aldeia parou a poucos passos de Darian. O vento soprou forte, agitando a barra de sua veste pesada.
— Você quer entrar na floresta após o terceiro toque, camponês? — perguntou Gudran, sem demonstrar raiva, apenas uma curiosidade fria.
— Sabe muito bem o que isso significa. O território não é mais nosso assim que a névoa desce.
— Meu marido está perdido na floresta, senhor Gudran, imploro que deixem esses bravos homens resgatá-lo. — respondeu Amara.
Gudran avaliou os homens um a um por alguns instantes longos. Um canto de sua boca se contraiu levemente, como se pesasse um risco antigo contra um capricho necessário.
— Muito bem — declarou Gudran, erguendo o cajado para conter qualquer interrupção.
— Vocês irão. Oskar, Cássio e mais os homens que escolherem.
O alívio mal disfarçado brilhou nos olhos de Oskar, mas durou pouco tempo. O Lorde ergueu o indicador descarnado, cortando o ar.
— Mas há uma condição.
O silêncio na praça tornou-se denso. Até o vento pareceu prender a respiração.
— Brutos irá com vocês — ordenou Gudran, apontando o cajado para o capitão que arregalou os olhos em surpresa.
— Ou melhor, ele levará dois dos meus guardas de maior confiança, Aquiles e Estefano.
Olhando para os dois soldados que chegaram ao seu lado.
— Se vão correr para o meio da necrópole de árvores, quero os olhos da minha guarda lá dentro garantindo que não tragam nenhuma praga de volta para os nossos muros.
— Ou vocês aceitam, ou os portões permanecerão trancados até o amanhecer.
Oskar olhou de relance para Brutos, que cerrava os dentes com ódio contido por ter de escoltar justamente aqueles que desafiava há instantes. No entanto, sabia que não havia escolha.
Por um breve instante, o olhar de Brutos se perdeu na linha escura das árvores além dos portões — e ali, por trás da raiva, havia algo mais antigo. Mais fundo. Ele desviou os olhos antes que alguém notasse.
— Acordo fechado — disse Oskar, voltando-se para o Comandante Cássio.
— Preparem as tochas encantadas, rapazes! — disse Cássio
Darian se aproxima de Oskar.
— Ouça Oskar, cuidado.
— A floresta é traiçoeira, não siga vozes, não faça contato visual com o que você não está à procura.
— Lute até o fim.
Oskar assentiu.
Foi então que, de muito longe, vindo do interior da floresta, um rosnado profundo ecoou pela noite.
GRRRRRRR…
Todos ficaram imóveis.
Por alguns segundos, ninguém disse uma palavra.
Os homens lentamente voltaram os olhos para a entrada da floresta, onde as árvores se erguiam como sombras negras além dos portões abertos.
O rosnado havia sido distante.
Mas era impossível dizer de onde exatamente havia vindo.
Um silêncio pesado tomou conta da praça.
Darian estreitou os olhos, encarando a escuridão entre as árvores.
Darian não se mexeu. Só o maxilar travou, e o ombro se contraiu, quase nada.
Então o som desapareceu.
Nenhum dos homens se moveu por mais alguns segundos.
Oskar respirou fundo e quebrou o silêncio.
— Irei trazê-lo de volta.
Darian segurou o braço de Oskar antes que ele se afastasse.
— Desculpe por não poder ir com vocês.
Ele olhou para a própria mão e a fechou lentamente, como se testasse a força que já não estava mais ali.
— Há alguns anos, eu teria sido o primeiro a atravessar aqueles portões.
Oskar ficou em silêncio por um instante.
— Não se preocupe, Darian. Tudo irá dar certo.
Darian soltou o braço dele.
— Espero que sim.
Então os rapazes se aprontaram para partir em busca de Zeph.
Boa sorte, rapazes… vocês irão precisar — pensou Darian, temendo o pior.
Uma noite fria e escura pairava no céu da aldeia.
Cinco homens corajosos partiram naquela noite em busca de Zeph.
Mas coragem não seria suficiente para trazê-los de volta.